A vida como ela é?

Eu tinha feito um texto sobre arroz na semana passada e deixei na pastinha de rascunho para publicar essa semana. Era sobre a variedade do cereal aqui na Espanha e o que fazemos em casa com cada um deles. Mas tanta coisa me aconteceu nestas últimas duas semanas que nem vejo sentido em falar de arroz.

A cada dia me cai uma ficha nova sobre o mundo e as pessoas. Cheguei à conclusão que aquele papo todo da zona de conforto bateu agora, e não nos meus primeiros meses aqui como eu pensava. Eu achei que tivesse sentido bastante saudade, sido privada o suficiente das coisas que eu gosto e que, por ter saído do conforto da minha cidade, eu estava aqui aprendendo coisas novas, conhecendo novos lugares e pessoas. Mas nada ainda se compara com este momento e o real significado do estar fora da zona de conforto.

Aconteceu num papo com a minha mãe. Uma pessoa que adquiriu também novas nuances e significados pra mim desde que estou aqui. Ela se tornou minha total heroína, meu apoio irrestrito. Já valeu a experiência toda só por ter percebido isso. Dizíamos que a vida de imigrante não é fácil. Ela lá em Portugal, eu aqui. A gente sofre preconceitos, sofre com o choque cultural. Isso é natural. E não é que sofremos ataques nas ruas, são coisas tão sutis que passariam batido se não fossem constantes. No papo, nos demos conta que tanto ela quanto eu fomos obrigadas a crescer, que eramos infantis. Tinhamos visões do mundo meio românticas. Claro, nosso universo era São Paulo e nele tinhamos nascido, nos criado. Para aquele contexto, éramos malandras. Já sabíamos de tudo, tínhamos visto de tudo, certeza que sobreviveríamos outro universo, afinal, somos da maior cidade da América do Sul.

Isso não é preparo algum. O que vivenciamos fora é outra história. Vamos tirando os véus dos olhos e vai caindo a inocência. Vemos maldade e egoísmo. Você começa a sentir a obrigação de se proteger e desconfia de tudo e de todos. Como diria o Marc, começamos a ver o ser humano em todo seu esplendor. Daí entendo porquê quando cheguei, os brasileiros que encontrei me trataram com desdém e desconfiança. Eu sei que essas facetas humanas existem também em São Paulo e existiam no contexto em que eu estava. Só acho que lá eu não estava completamente despida, eu tinha suportes emocionais, legais, eu estava no meu habitat.

A ideia não é me fazer de vítima, muito pelo contrário. É entender que nada é pessoal e que eu deveria também me proteger de forma totalmente impessoal. A realização de que, se eu não pensar em mim, ninguém vai.

Eu fico meio triste. Não queria endurecer nem perder a ternura. Mas, acho que é um caminho sem volta e tudo bem, aprendi da forma mais dura muitas coisas que, se eu não tivesse saído de SP, de repente eu não teria que lidar. Até porque a vida vai continuar a ensinar lições e vou levar tombos infinitamente maiores, seja aqui, na Conchichina ou no Rio de Janeiro.

PS: Eu ia colocar uma foto da série The Walking Dead. É sobre um virus que ataca o mundo e transforma quem morre em zumbi. Os zumbis ficam vagando pelo mundo tentando comer carne fresca. A série é muito real apesar da total ficção. As relações humanas nesta situação de preservação são cruas e muito ego e maldade tomam conta. Será que isso é tão ficção? Um lugar onde pessoas tentam sugar nossa vida tirando proveito de tudo, vencendo quem é mais egoísta? Por sorte, tinha uma foto do Calvin e do Haroldo na pesquisa e achei mais divertido!😉

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