A euforia

Tem tanta coisa que eu queria falar. Queria falar da minha nova mania, das embalagens de salgadinhos que tô colecionando desde que fui a Londres. Que pirei tanto nessa cidade que sonho em voltar pra fazer um pente fino em cada referência, é tanto estímulo visual, tanta ideia incrível. E que fui no IKEA e pirei também no design das embalagens do mercadinho deles, bacana comparar a visão sueca, da espanhola, da inglesa e por aí vai. Tantos estilos pra se desenhar um pack.

Mas aí também tô pensando muito nessa euforia brasileira. A gente conversa muito aqui, os brasileiros, os argentinos, os europeus em geral. Falamos muito do Brasil. Nós, brasileiros, ficamos pensando se estamos perdendo muito por não estar no Brasil no que aparentemente é o auge da grana e do trabalho, o mercado superaquecido, as pessoas comprando casa, carro, cachorro, plantando árvore. Enquanto aqui, na Espanha, a crise vai fatal, só se fala nisso, não tem trabalho, não tem dinheiro. Os latino-americanos também pensam se não é hora de voltar e surfar na onda de uma América do Sul mais forte. Parece que Peru, Argentina, Uruguai e Colombia tão se erguendo junto com o Brasil.

Eu saí do Brasil eufórica, querendo fazer uma pós numa das melhores faculdades da Espanha pra poder voltar com o curriculo forte e poder ganhar mais, ter mais coisas, comprar de repente aquele apê, ter aquele carro. Daí, aqui, cheguei à conclusão que não sei se quero aquela vida do carro com o apê lá em SP. Que eu corria um risco sério de ficar dentro do carro por horas, indo pro trabalho que eu provavelmente também teria que ficar por 12, 13 horas. E, de novo, ia estar infeliz por deixar de lado a parte pessoal de criar uma família.

Bacana mesmo que o Brasil vai muito bem. É o que a gente espera há tantos anos, com a frase “país do futuro” no canto da nossa mente. Mas acho que muita coisa é deixada de lado no que diz respeito ao ser humano. Em SP não existe respeito à vida. Ganhar dinheiro é bom, na maior cidade da América do Sul. Mas a que preço? É gostoso ir gastar um dinheirinho num restaurante da moda e passar por um arrastão?

Acho que as aparências enganam um pouco a gente. Aqui não está um paraíso. Existe sim um colapso mas isso já foi previsto há muitos anos. A Espanha, como Portugal, tem uma cultura totalmente diferente do resto da Europa e quando entrou para a União Europeia, viu seu nível de vida subir, todos ficaram ricos e europeus. Só que não se sustentou, porque não se trabalha aqui como na Alemanha. Você acha mesmo que toda Berlim fecharia as portas em agosto pra ir pra praia? Ou então fecharia TODAS suas lojas 4 horas por dia pra tirar uma siesta? Pra terem vida pessoal, os espanhóis sacrificam um pouco a parte do trabalho. Mas isso é um lifestyle, é deles, e não chegou de repente.

A vida continua aqui, e novos negócios continuam sendo abertos. Ando vendo mil lojas, restaurantes, pipocarem pela cidade. O Ferran Adrià continua inventando moda e ficando rico.

As crises existem para trazerem à luz o que foi jogado pra debaixo do tapete. Eu morro de medo com o que pode acontecer quando descobrirem a sujeira embaixo do NOSSO tapete. Os espanhóis estão aprendendo que todo subidón, tem um bajón. Tamos subindo, subindo, mas nosso país tem base pra sustentar-se lá em cima? Ou como aqui, vamos ver cair algumas mentiras?

Comments
2 Responses to “A euforia”
  1. Ti, eu tenho pensado demais nisso tudo, também há algum tempo. Viver aqui em São Paulo está cada vez mais insustentável. Nunca tive tanto medo: de ser assaltada, de ser atropelada ou mesmo de ter um colapso respiratório com tanta poluição. Sem contar que muita grana exclui e separa cada vez mais as pessoas numa cidade que já, por natureza, excludente. Como diz o Criolo, não existe amor em São Paulo e está todo mundo à flor da pele, pronto para ter um surto a qualquer momento. Estou planejando fazer doutorado ano que vem e voltar a Madrid ou quizás Barna, viver de um jeito que realmente vale a pena viver. Por que no fim das contas o lifestyle espanhol sempre foi o mais fantástico do mundo: amigos e família em primeiro lugar. E o resto dá-se um jeito, siempre! Besotes.😉

    • tinalombardi disse:

      Tem razão, Aninha. Num quero nem cospir pra cima, eu amo SP e sempre defendi que a cidade mantivesse essa cara urbana e suja, cinza. Mas acho que tá faltando coisas muito básicas, principalmente na sociedade. A começar por sair do século XIX. É aquela coisa que vimos na manifestação de Higienopolis: é bacana andar de metrô em Paris e em Londres, em SP não?
      Beijocas

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